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O mito da liberação miofascial: o que realmente acontece quando usamos as mãos?

Durante muitos anos, difundiu-se a ideia de que técnicas manuais seriam capazes de “liberar”, “romper” ou “descolar” a fáscia — como se o terapeuta, com pressão manual, pudesse modificar mecanicamente um tecido denso e altamente resistente.



Hoje, a ciência mostra que essa interpretação não se sustenta biomecanicamente.

A fáscia não “cede” à força das mãos


Um estudo clássico de Chaudhry et al. (2008) utilizou modelos matemáticos tridimensionais para calcular quanta força seria necessária para deformar a fáscia humana. Os resultados foram claros:


  • Para gerar apenas 1% de deformação na fáscia lata, seriam necessários cerca de 460 kg de força

  • Na fáscia plantar, aproximadamente 424 kg


Esses valores estão muito acima da capacidade de qualquer técnica manual — e muito além do que o corpo humano toleraria sem lesão.


👉 Ou seja: não é possível “liberar” a fáscia mecanicamente com as mãos.

Então por que o paciente sente alívio?


A resposta não está na estrutura do tecido, mas no sistema nervoso.

Os efeitos da chamada liberação miofascial são neurofisiológicos, não mecânicos. O toque, a pressão e o alongamento suave estimulam mecanorreceptores e nociceptores, modulando a atividade neural e a percepção da dor.


Modelos atuais de terapia manual (Bialosky et al., 2009; Schleip et al., 2012) mostram que essa estimulação pode gerar:


  • redução da hipervigilância do sistema nervoso;

  • diminuição do tônus muscular excessivo;

  • melhora da propriocepção e do controle motor;

  • sensação de alívio, segurança e liberdade de movimento.


Não se trata de “quebrar” tecidos, mas de mudar a forma como o cérebro interpreta e organiza o movimento.


O papel da liberação miofascial na REABFISIO


Na REABFISIO, entendemos a liberação miofascial como uma estratégia de modulação sensório-motora, inserida dentro de um plano terapêutico mais amplo.


O objetivo não é provocar dor intensa, mas sim:

  • promover segurança ao sistema nervoso;

  • reduzir estados de defesa;

  • facilitar o movimento consciente;


  • preparar o corpo para exercícios ativos e reeducação neuromotora.

Quando uma técnica gera dor insuportável, contração involuntária ou tentativa de fuga, o corpo entra em estado de alerta. Nesse cenário, as respostas desejadas — analgesia, relaxamento e reorganização motora — não acontecem.


👉 Dor extrema não é sinal de eficácia. Muitas vezes, é sinal de defesa.


O que a ciência sustenta hoje


As evidências atuais apontam que a liberação miofascial funciona como uma ponte entre o toque e o sistema nervoso, e não como uma intervenção estrutural direta.


Principais referências:


  • Chaudhry H. et al. (2008). J Am Osteopath Assoc

  • Bialosky J.E. et al. (2009). Manual Therapy

  • Schleip R., Müller D.G. (2013). Journal of Bodywork and Movement Therapies

  • Aboodarda S.J. et al. (2015). Journal of Bodywork and Movement Therapies


Conclusão


A chamada “liberação miofascial” não é uma batalha contra os tecidos.É uma forma sofisticada de comunicação com o sistema nervoso.


Quando aplicada com ciência, respeito à fisiologia e integrada ao movimento, ela:


  • reduz a dor,

  • melhora o controle motor,

  • restaura a confiança corporal.


Na REABFISIO, acreditamos em menos força e mais ciência — porque o corpo não precisa ser vencido, e sim compreendido.

 
 
 

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