RED-S NA PRÁTICA
Como reconhecer os sinais de alerta antes que vire um problema maior - Parte 2

Há algum tempo, no blog, explicamos o conceito de RED-S (Deficiência Energética Relativa no Esporte) e como ele substituiu a antiga Tríade da Mulher Atleta por uma visão muito mais completa: hoje sabemos que a baixa disponibilidade energética pode afetar homens e mulheres, atletas de qualquer modalidade, e praticamente todos os sistemas do corpo, não apenas os ossos e o ciclo menstrual.
Agora vamos aprofundar um pouco mais nesse tema. Uma pergunta ficou em aberto: na prática, como saber se você ou seu atleta está em risco?
É exatamente isso que o Comitê Olímpico Internacional resolveu quando lançou o REDs CAT2, uma ferramenta de avaliação clínica criada para ajudar profissionais de saúde a identificar sinais de RED-S com mais precisão e classificar o nível de risco através de uma pontuação. Vamos usar essa lógica aqui, adaptada para que você entenda melhor os sinais do seu próprio corpo, sempre lembrando que isso é um guia de autoconhecimento, não um diagnóstico. Quem confirma é a avaliação profissional.
Como funciona a pontuação
A ferramenta soma pontos conforme os indicadores presentes. Os sinais mais graves valem mais pontos, e a soma total define a faixa de risco.
Indicador | Pontos |
Amenorreia primária | 2 |
Amenorreia secundária prolongada (≥ 1 ano) | 2 |
Amenorreia de 3 a 11 meses | 1 |
T3 total ou T3 livre baixo | 1 |
Fratura por estresse de alto grau (ou 2 de baixo grau em 2 anos) | 1 |
Z-escore < -1 DP na densitometria óssea (DXA) | 1 |
Desvio na trajetória de crescimento (criança/adolescente) | 1 |
Pontuação > 2,30 no questionário EDE-Q | 1 |
Oligomenorreia (intervalo > 35 dias, 8 ciclos/ano) | 1 |
Fratura de baixo risco + afastamento do treino | 1 |
Colesterol total ou LDL alto | 1 |
Depressão ou ansiedade | 1 |
Somando todos os pontos presentes, o resultado indica o nível de risco:
● 0 a 1 ponto — risco baixo
● 2 a 5 pontos — risco moderado
● 6 pontos ou mais — risco alto, merecendo avaliação multidisciplinar imediata
As quatro faixas de risco
Além da pontuação, a ferramenta do COI também trabalha com quatro faixas visuais, que ajudam a entender rapidamente onde você está e o que fazer a respeito.
🟢 VERDE — Risco nenhum ou bem baixo Saúde e performance Você treina normalmente, sem quedas de rendimento, com ciclo menstrual regular quando aplicável, sono, humor e apetite estáveis. Nenhuma ação é necessária além de manter os bons hábitos de treino, alimentação e recuperação. |
🟡 AMARELO — Risco leve Monitoramento Começam a aparecer sinais discretos: cansaço um pouco maior do que o habitual, pequenas irregularidades no ciclo menstrual, oscilações de humor, ou uma sensação de que o corpo não está se recuperando tão bem entre os treinos. Nessa fase, vale a pena conversar com um profissional e ficar de olho na evolução. O treinamento pode continuar, mas com atenção redobrada. |
🟠 LARANJA — Risco moderado a alto Intervenção Aqui os sinais já são mais consistentes: ausência de menstruação por vários meses, queda perceptível no rendimento esportivo, fraturas por estresse, sintomas de ansiedade ou tristeza persistentes, alterações de pressão arterial ou frequência cardíaca. Esse é o momento de buscar avaliação multiprofissional e considerar ajustes no treinamento até que os parâmetros se estabilizem. |
🔴 VERMELHO — Risco muito alto ou extremo Segurança em primeiro lugar Amenorreia prolongada de um ano ou mais, fratura por estresse de alto grau, comportamento alimentar restritivo ou compulsivo importante, sintomas psicológicos intensos, bradicardia ou pressão muito baixa. Nesse estágio, o tratamento precisa ser imediato, muitas vezes com afastamento temporário do treino e acompanhamento próximo de uma equipe multiprofissional. Segurança vem antes de qualquer meta esportiva. |
Sinais que merecem atenção no dia a dia
Além da pontuação e das faixas de risco, existem sintomas que costumam aparecer antes de um quadro mais grave se instalar, e que muitas vezes são ignorados ou atribuídos apenas ao cansaço da rotina:
● Alterações no ciclo menstrual, da irregularidade leve até a ausência completa
● Queda de libido e alterações hormonais, algo comum também em homens
● Fadiga persistente que não melhora com o descanso
● Dificuldade de concentração, irritabilidade ou mudanças de humor
● Compulsão por exercício, ou culpa intensa ao não treinar
● Distúrbios do sono
● Sintomas gastrointestinais frequentes, principalmente perto dos treinos
● Tontura ou sensação de fraqueza ao levantar rapidamente
● Frequência cardíaca muito baixa em repouso
● Fraturas por estresse recorrentes ou dor óssea persistente
Nenhum desses sinais isolados fecha um diagnóstico. Mas quando aparecem combinados, ou se mantêm por semanas, é sinal de que o corpo está pedindo atenção.
Por que isso importa tanto
O ponto central do RED-S é que o corpo não distingue perfeitamente entre gastar energia treinando e gastar energia mantendo o coração, os hormônios e o sistema imune funcionando. Quando a ingestão de energia não acompanha o gasto, o organismo começa a economizar onde consegue, e geralmente começa pelos sistemas que parecem menos urgentes no curto prazo, como o hormonal e o reprodutivo. É por isso que sinais como irregularidade menstrual ou queda de libido, que muitas vezes são minimizados, na verdade funcionam como um alerta precoce de que algo maior pode estar em curso.
O que fazer com essa informação
Se você se identificou com sinais das faixas verde ou amarela, o caminho é simples: observe, mantenha bons hábitos e, se notar piora, procure orientação. Se os sinais estão nas faixas laranja ou vermelha, não espere. Quanto antes o desequilíbrio for identificado e tratado, mais rápida e completa costuma ser a recuperação, com menos impacto na sua saúde e na sua carreira esportiva.
Na ReabFisio, entendemos que treino, recuperação e saúde caminham juntos. Se algum desses sinais soa familiar, marque uma avaliação com nossa equipe. Quanto mais cedo o desequilíbrio energético é identificado, mais fácil é reverter o quadro sem comprometer o que você mais quer, que é continuar treinando com saúde por muito tempo.
FAQ — Perguntas frequentes
RED-S acontece apenas com mulheres?
Não. O RED-S pode afetar homens e mulheres, independentemente da modalidade esportiva, quando existe baixa disponibilidade energética em relação às necessidades do organismo.
É possível ter RED-S mesmo sem perder peso?
Sim. O peso corporal isoladamente não é suficiente para identificar RED-S. É possível apresentar baixa disponibilidade energética e alterações fisiológicas mesmo sem uma perda de peso evidente.
Todo atleta que sente cansaço durante os treinos está com RED-S?
Não. O cansaço pode ter diversas causas. No RED-S, a atenção deve aumentar quando a fadiga é persistente, não melhora adequadamente com descanso e aparece junto a outros sinais, como alterações hormonais, queda de rendimento ou problemas de recuperação.
Como saber se meus sintomas podem estar relacionados ao RED-S?
A presença de vários sinais simultaneamente — como fadiga persistente, alterações menstruais, queda de libido, distúrbios do sono, mudanças de humor, lesões recorrentes ou queda de performance — merece investigação profissional.
Homens também podem apresentar alterações hormonais relacionadas ao RED-S?
Sim. Em homens, a baixa disponibilidade energética pode estar associada a alterações hormonais, incluindo redução da libido e alterações relacionadas à função reprodutiva.
RED-S pode afetar meu desempenho esportivo?
Sim. A baixa disponibilidade energética pode comprometer recuperação, função hormonal, saúde óssea, metabolismo e outros processos importantes para o desempenho e a adaptação ao treinamento.
Quem pode avaliar um possível caso de RED-S?
A avaliação pode envolver diferentes profissionais, como médico, nutricionista, fisioterapeuta e psicólogo, dependendo dos sinais apresentados e da necessidade de cada atleta
RED-S tem tratamento?
Sim. O tratamento depende das causas e da gravidade do quadro e pode envolver ajustes na alimentação, treinamento, recuperação e acompanhamento de diferentes profissionais.






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